Uns serzinhos frenéticos são dispostos paralelamente uns aos outros em pequeninas cadeiras onde devem ficar durante o dia inteiro.
Os intervalos são previamente determinados, as exceções se fazem segundo as constantes necessidades fisiológicas dos serzinhos, que, espertos, utilizam-na como forma de burlarem pequeninamente a exaustão sistemática do tédio.
Dão, aos serzinhos, lápis, borracha e caderno, onde devem expressar somente o que lhes é passado, mesmo que não compreendam;
A observação é mínima, o entendimento é mínimo. A ordem é máxima e dura e aguda.
A energia dos serzinhos deve ser o tempo todo contida; As poucas atividades extra-classe não necessariamente os conecta com o mundo. São apenas breves escapes que contraditoriamente servem para discipliná-los também ao ar livre.
O recalque de tamanha energia, naturalmente, haverá de desembocar num futuro próximo em alguma curva inesperada e irônica para o que se espera da vida de tais serzinhos.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Uns tipos de barbados.
Senhor barbado
a barba que te avance
semeando um intelecto raso,
a barba
alcance!
Senhor barbado
vasta e mais imensa
é a barba.
a barba que te avance
semeando um intelecto raso,
a barba
alcance!
Senhor barbado
vasta e mais imensa
é a barba.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
Conhecidos desconhecidos.
Seu rosto às vezes me foge.
Quando o encontro e o reconheço, sinto o ímpeto de aproximar-me para lhe
dedicar os cumprimentos aos quais estávamos acostumadas. Por isso, preciso
conter-me ao lembrar-me em cima da hora e com tristeza, que nos deslocamos para
o espaço neutro e incômodo dos conhecidos desconhecidos.
Às vezes quando aparece à minha
frente, sinto dificuldade de lhe reconhecer. Não no sentido de saber quem és,
mas no sentido de não poder encontrar em ti as feições antigas, doces, confusas, mas
amigas. Sinto grande tristeza por não ter me empenhado em desenvolver as
intimidades de nossa amizade, de fortalecer os laços, prolongar as conversas,
os momentos, os desabafos.
Achava eu que já estava fazendo
alguma coisa, dedicando-lhe admiração e sentimentos bons, dando-lhe minha
atenção e minha preocupação. Mas talvez não tenha feito suficiente. Talvez
tenha falhado em lhe mostrar o tamanho do meu afeto.
Algumas pessoas, entretanto, tem
esse efeito em mim. Aguçam algum sentimento materno, mas pela complexidade de
suas personalidades, deixam-me tímida. Sinto vontade de proteger, ao mesmo
tempo em que sinto medo de limitar, de mal interpretar, de chatear. Acabo,
portanto, mantendo-me neutra, encolhida. Isso pode ter acabado com as
oportunidades que eu tinha de lhe mostrar o quanto eu realmente me importava.
Com você, e não com outra pessoa.
Aqui permaneço, no entanto, ainda
atenta. Preocupada quando lhe encontro em qualquer situação estranha, querendo
lhe falar algumas palavras atenciosas e temerosas, tentando lhe passar algum
conselho irritante. Mas nada posso fazer, meu tempo passou. Disse que respeitaria seu afastamento e
respeito, dedico-lhe nada mais que o silêncio, e talvez um olhar saudoso, ao
passar por ti no corredor.
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Náusea.
"No momento é o jazz que toca; não há melodias, apenas notas; uma miríade de curtas sacudidelas. Elas não param, uma ordem inflexível as origina e as destrói, sem nunca permitir que se recomponham, que existam por sí. Elas correm, se apressam, de passagem me dão um golpe seco e se obliteram. Gostaria muito de retê-las, mas sei que, se conseguisse deter uma, só me ficaria entre os dedos um som apagado e vulgar" (SARTRE. P.37).
Náusea é um romance de 1938 do escritor e filósofo existencialista, Jean Paul Sartre. A obra é formada pelo diário do narrador-personagem, Antone Roquentin, que disserta sobre seu cotidiano e suas considerações acerca de sua existência enquanto trabalha na biografia do Marques de Rollebon e mora em uma pequena cidade francesa, chamada Bouville.
Os relatos iniciam a partir do momento que o sr. Roquentin começa a sentir náusea, quando sua percepção sobre as coisas ao seu redor não lhe parece normal. De início, há a possibilidade dos objetos à sua volta terem se modificado. Então a estranheza residiria ali, na modificação das coisas aparentemente estáveis. Entretanto, com o andar da narrativa, as considerações do personagem o levam a outra conclusão, mas a conclusão é, na verdade, a parte secundária.
Náusea, de Sartre, é um romance existencialista não simplesmente pelas considerações acerca da existência, sufocantes de tão verdadeiras, mas sim porque lhe faz sentir, além de pensar sobre as divagações do personagem. Diria que na minha opinião, é um livro mais sensitivo que racional, e aí reside, então, toda sua genialidade.
Ao invés de simplesmente racionalizar sobre as sensações descritas, você passa a sentir e a se enxergar exatamente como Antone Roquentin. As pessoas ao seu redor lhe parecem andar de maneira mais lenta, à medida que suas considerações cercam os passos delas, as ruas em que andam, os lugares que frequentam e que são preenchidos por toda aquela estrutura de ossos, carnes e visão. Quanto mais se avança a narrativa, também mais sua consciência sobre si mesmo se expande. De repente, as mãos que seguram o livro, o rosto que você olha no espelho, parecem ou desconexos, ou muito verdadeiros e pesados, quase algo que você não acredita ter conseguido levar durante todo o tempo em que está vivo.
Náusea tira essa naturalidade com que se encara a vida. De repente, tudo lhe parece não só um acontecimento, mas uma catarse.
Náusea, de Sartre, é um romance existencialista não simplesmente pelas considerações acerca da existência, sufocantes de tão verdadeiras, mas sim porque lhe faz sentir, além de pensar sobre as divagações do personagem. Diria que na minha opinião, é um livro mais sensitivo que racional, e aí reside, então, toda sua genialidade.
Ao invés de simplesmente racionalizar sobre as sensações descritas, você passa a sentir e a se enxergar exatamente como Antone Roquentin. As pessoas ao seu redor lhe parecem andar de maneira mais lenta, à medida que suas considerações cercam os passos delas, as ruas em que andam, os lugares que frequentam e que são preenchidos por toda aquela estrutura de ossos, carnes e visão. Quanto mais se avança a narrativa, também mais sua consciência sobre si mesmo se expande. De repente, as mãos que seguram o livro, o rosto que você olha no espelho, parecem ou desconexos, ou muito verdadeiros e pesados, quase algo que você não acredita ter conseguido levar durante todo o tempo em que está vivo.
Náusea tira essa naturalidade com que se encara a vida. De repente, tudo lhe parece não só um acontecimento, mas uma catarse.
Seria até perigoso que eu me identificasse um pouco mais com o personagem Antone Ronquentin. Mas certamente o que me fisgou já foi o suficiente, não somente para preocupar-me, mas para extasiar-me também. Há algo na consciência de saber-se que é digno de nossa atenção.
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
People should die for rock and roll.
"Rock And Roll é tão fabuloso, as pessoas deviam começar a morrer por ele. Você não está entendendo. A música te pôs de novo no ritmo pra que você pudesse sonhar. Uma geração inteira no embalo de um baixo Fender... As pessoas simplesmente devem morrer pela música. As pessoas estão morrendo por tudo o mais, então por que não pela música? Morrer por ela. Não é bárbaro? Você não morreria por algo bárbaro? Talvez eu deva morrer. Além do mais, todos os grandes cantores de blues morreram. Mas a vida está ficando melhor agora. Não quero morrer. Quero?" (Lou Reed).
domingo, 8 de setembro de 2013
Medo e delírio em Las Vegas
“Estávamos em algum lugar perto de Barstow, à beira do deserto, quando as drogas começaram a fazer efeito. Lembro que falei algo como ‘estou meio tonto; acho melhor você dirigir…’ E de repente fomos cercados por um rugido terrível, e o céu se encheu de algo que pareciam morcegos imensos, descendo, guinchando e mergulhando ao redor do carro, que avançava até Las Vegas a uns 160 por hora, com a capota abaixada. E uma voz gritava: ‘Jesus Santíssimo! Que Diabos são esses bichos?’” (THOMPSON, Medo e delírio em Las Vegas. 2010. p.11)
Quando comecei esta leitura, já estava avisada de que não seria o que normalmente me agrada em termos de literatura marginal. No entanto, também já estava preparada para a loucura exagerada no contexto caótico das drogas e do nonsense. Geralmente, o que eu costumava ler a respeito envolvia certo contexto espiritual que tentava explicar ou justificar a inconsequência das mentes que protagonizavam o cenário. Esta leitura, no entanto, não busca romantizar as experiências alucinógenas, nem justificá-las, nem muito menos busca mostrar que há qualquer sentido envolvido enquanto você vivencia tais experiência, ou mesmo quando você não as vivencia...
“(…) São Francisco na metade dos anos 60 era um lugar muito especial para estar, em um tempo muito especial para viver. Talvez tenha significado algo. Talvez, não, no fim das contas… mas nenhuma explicação, nenhuma combinação de palavras, músicas ou lembranças é comparável à sensação de saber que você esteve lá, que viveu naquela parte do mundo durante aquele momento. Seja lá o que isso tenha significado…
História é um assunto nebuloso, por todas as merdas que acabam incluídas mais tarde. Mas, mesmo sem podermos ter nenhuma certeza sobre a ‘história’, parece bastante sensato imaginar que, vez ou outra, a energia de uma geração inteira atinge seu ápice num instante magnífico e duradouro, por motivos que na época ninguém compreende por inteiro – e que, em retrospecto, nunca explicam o que realmente aconteceu.” (THOMPSON. Medo e delírio em Las Vegas. 2010, p.76-77)
O livro "Medo e Delírio em Las Vegas", foi escrito por volta dos anos 60 por Hunter Thompson, antecipando a perspectiva pessimista que viria logo após a grande época dos anos hippies. No livro, Hunter Thompson retratou a ressaca de toda uma geração que alimentava coletivamente sonhos já fadados ao fracasso. O autor, no entanto, não nos leva a esse sentimento de forma explícita. Somos apenas convencidos a crer que não há mais como nem porque buscar por algo que transceda a vida e os limites nela muito bem estabelecidos.
Aliás, talvez o fato mais genial que se desdobre na narrativa, seja justamente essa convicção de que se houvesse algo maior a ser buscado, tanto dentro quanto fora da carne, esse algo só poderia ser vislumbrado perante uma eterna e simplória zombaria, uma vez que a rígida estrutura que prevalece, parece nem sequer tremer perante os mais altos e perseverantes rugidos. Dessa forma, manter-se dopado 24 horas por dia, junto de seu advogado samoano, levando um estoque quase infindável de drogas dentro de um conversível vermelho, com a grana de uma matéria que nem chega a ser concluída, com a desculpa de se perseguir o sonho americano, tudo isso dentro do cenário caótico e estereotipado de Las Vegas, serve perfeitamente para os propósitos que parecem se delinear na narrativa: zombar, ironizar, denunciar e protestar.
O sonho americano, no final, é qualquer coisa suficientemente distorcida para não ser nada. Para ser um ajuntamento de ilusões midiáticas que fazem mais valer a pena pensar que é um sopro sujo do vento. Apenas uma rajada confusa de ar que perspessa as orelhas e nos faz perceber um ruído que nos dá a impressão de que algo passou. Algo rápido demais para entender ou perceber que foi real. Um modelo falho de um sistema falho e opressivo. A falta de sentido, por isso, deve traduzir toda e qualquer aventura que os personagens passam, há um propósito político disfarçado nas loucuras vivenciadas pelos personagens.
Talvez seja isso que no final assuste tanto a maioria das pessoas que se entregam a um romance deste tipo. Pensar em uma vida de loucuras injustificadas, conformando-se com isso sem resistências, sem nem ao menos procurar qualquer outro motivo que pareça dignificar a vida humana, não só assusta, como talvez tire os principais motivos de se persistir com as constantes indagações que acometem a nossa espécie. No entanto, a mim mesma só resta justificar-me pela mesma frase que Hunter Thompson cita antes de iniciar sua narrativa:
“Quem faz de si um animal selvagem fica livre da dor de ser um homem”
- Dr. Johnson
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