segunda-feira, 20 de março de 2017

Chapadas.

As pessoas chapadas estão, com seus pequeninos olhos quase fechados, atingindo a visão da sintonia. Atingem a sensibilização de outro patamar em si mesmas, dentro da própria pele formigante um conjunto inesgotável de astros que se entrechocam e na explosão criam universos inteiramente complexos que saem pelos olhos, quase como fogo.
As pessoas chapadas estão rindo de suas verdades que surgem, uma duas tres, linearmente e entrecruzadas. Elas podem dançar em cima dos incertos nevoeiros de conforto que suavizam seus passos e as fazem se perguntar se estão de fato firmes ao chão. Mas existe chão?

quinta-feira, 16 de março de 2017

Leia então a paixão.

Incompreensivelmente dentro de mim, quando só assim se vale viver completamente. O mundo em suspenso e só seu silêncio balbuciando um suspiro de paz. Imersão. Por que você está triste? Eu não estou triste. Estou inalcançavelmente plena. Que abismo perceber que tanto vale a pena esse precipício motivado. Vem, vou te ler a paixão. Mas eu vou só rodopiar na extensão dos signos tão irremediáveis, míseros. Ainda assim, vai ser bonito. Me leia então a paixão.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Manifesto à Boina


Vamos queimar as boinas do mundo
esses adornos que ensebam rasas ideias
e grandes pretensões
Rasgar o tecido grosso
a única forte estrutura que carregam acima dos pescoços
Vamos tirar as boinas de circulação
deixar tristes os bigodes, as barbas falhas
ou mesmo as cheias
Vamos deixar honestas as cabeças tolas
sem pose e sem garbo
Acabar com a história
desses inautênticos
machos.

sábado, 21 de maio de 2016

MAIS UM BATIZADO

Agora novamente o padre estenderá suas mãos

balbuciará palavras de bençãos
que cairão tortas e vitoriosas
sobre a moleira desamparada da recém nascida

Mais uma vez, eu, ignorada
talvez apenas com um beijo
possa atrapalhar as palavras do clero
para que não escorram tão facilmente pela testa da pequena
essas temerosas delegações


Pois antes uma bruxa, pequena,
antes uma bruxa a lhe fazer de unguento,
que um padre a lhe fazer detenta.

domingo, 27 de setembro de 2015

Sobre as filhas de Isabel.

Elas não vão lhe sorrir um sorriso fácil
é muito possível, inclusive, que deixem escapar um riso,
nada agradável
nada amigo.

As mãos serão estendidas,
serão balançadas em cumprimento
serão acenadas
mais tarde na saída.

Mas nada as fará ser facilmente
cúmplices de suas rotinas,
de seus passatempos,
de suas piadas maldosas e de seus forjados lamentos.

Haverá, de vez em quando,
para não enferrujar
as ricas possibilidades da atuação,
um olhar mais cândido,

um murmúrio de compreensão.
E em seguida, reservadas em seus francos raciocínios,
morderão os lábios só para si
em franca e honesta

rejeição.


segunda-feira, 13 de abril de 2015

Minhas novas primas e primos não me conhecerão

Vejo essa nova geração de pequenos nascendo na minha ~ família ~ cercado de cuidados, manhosos, enfeitados pelas famigeradas cores verde e amarelo e acanho-me. Aliás, será essa a palavra? Envergonho-me. Pronto. Sei que não terei nada a falar para elxs, e mesmo que fale, seus respectivos núcleos familiares farão o possível para desmentir-me, como fazem os pais dos alunos com quem agora tenho contato. Percebo que qualquer esforço é ralo, falho. O meio que os cerca é por demais forte, e talvez as certezas que elxs vem recebendo agora só serão rompidas se acaso elxs mesmo busquem no futuro, ou desconfiem eventualmente, dos motivos e das explicações rasas e fáceis que vêm recebendo até então. Entretanto, isso só acontecerá se acaso essas verdades os afetarem diretamente de alguma forma, senão, todo um mundo de privilégios e verdades excludentes será mantido.

Aliás, você percebe que não há muito o que fazer quando sua ~prima~ mais velha, formada e etc e tals possui um buldogue com o nome de uma mulher que foi responsável pela desgraça de várias trabalhadoras e trabalhadores na Inglaterra. Ou ainda quando a mesma ~ prima ~ lança no wpp uma piada racista, que faz todos seus outros ~ familiares~ se esbaldarem de rir. Enfim, essa coisa de laços genéticos sempre me fez refletir, mas hoje em dia sinto-me bastante tranquila para simplesmente dizer que meus novos primos e primas não conhecerão, pois mesmo que me vejam, mesmo que os estenda a mão em um cumprimento - provavelmente em alguma ocasião social forçada - eles me verão apenas como Floriano, e eu não farei qualquer esforço para que me conheçam na minha individualidade.