domingo, 8 de setembro de 2013

Medo e delírio em Las Vegas





“Estávamos em algum lugar perto de Barstow, à beira do deserto, quando as drogas começaram a fazer efeito. Lembro que falei algo como ‘estou meio tonto; acho melhor você dirigir…’ E de repente fomos cercados por um rugido terrível, e o céu se encheu de algo que pareciam morcegos imensos, descendo, guinchando e mergulhando ao redor do carro, que avançava até Las Vegas a uns 160 por hora, com a capota abaixada. E uma voz gritava: ‘Jesus Santíssimo! Que Diabos são esses bichos?’” (THOMPSON, Medo e delírio em Las Vegas. 2010. p.11)

Quando comecei esta leitura, já estava avisada de que não seria o que normalmente me agrada em termos de literatura marginal. No entanto, também já estava preparada para a loucura exagerada no contexto caótico das drogas e do nonsense. Geralmente, o que eu costumava ler a respeito envolvia certo contexto espiritual que tentava explicar ou justificar a inconsequência das mentes que protagonizavam o cenário. Esta leitura, no entanto, não busca romantizar as experiências alucinógenas, nem justificá-las, nem muito menos busca mostrar que há qualquer sentido envolvido enquanto você vivencia tais experiência, ou mesmo quando você não as vivencia...

“(…) São Francisco na metade dos anos 60 era um lugar muito especial para estar, em um tempo muito especial para viver. Talvez tenha significado algo. Talvez, não, no fim das contas… mas nenhuma explicação, nenhuma combinação de palavras, músicas ou lembranças é comparável à sensação de saber que você esteve lá, que viveu naquela parte do mundo durante aquele momento. Seja lá o que isso tenha significado…
História é um assunto nebuloso, por todas as merdas que acabam incluídas mais tarde. Mas, mesmo sem podermos ter nenhuma certeza sobre a ‘história’, parece bastante sensato imaginar que, vez ou outra, a energia de uma geração inteira atinge seu ápice num instante magnífico e duradouro, por motivos que na época ninguém compreende por inteiro – e que, em retrospecto, nunca explicam o que realmente aconteceu.” (THOMPSON. Medo e delírio em Las Vegas. 2010, p.76-77)

O livro "Medo e Delírio em Las Vegas", foi escrito por volta dos anos 60 por Hunter Thompson, antecipando a perspectiva pessimista que viria logo após a grande época dos anos hippies. No livro, Hunter Thompson retratou a ressaca de toda uma geração que alimentava coletivamente sonhos já fadados ao fracasso. O autor, no entanto, não nos leva a esse sentimento de forma explícita. Somos apenas convencidos a crer que não há mais como nem porque buscar por algo que transceda a vida e os limites nela muito bem estabelecidos.

Aliás, talvez o fato mais genial que se desdobre na narrativa, seja justamente essa convicção de que se houvesse algo maior a ser buscado, tanto dentro quanto fora da carne, esse algo só poderia ser vislumbrado perante uma eterna e simplória zombaria, uma vez que a rígida estrutura que prevalece, parece nem sequer tremer perante os mais altos e perseverantes rugidos. Dessa forma, manter-se dopado 24 horas por dia, junto de seu advogado samoano, levando um estoque quase infindável de drogas dentro de um conversível vermelho, com a grana de uma matéria que nem chega a ser concluída, com a desculpa de se perseguir o sonho americano, tudo isso dentro do cenário caótico e estereotipado de Las Vegas, serve perfeitamente para os propósitos que parecem se delinear na narrativa: zombar, ironizar, denunciar e protestar.

O sonho americano, no final, é qualquer coisa suficientemente distorcida para não ser nada. Para ser um ajuntamento de ilusões midiáticas que fazem mais valer a pena pensar que é um sopro sujo do vento. Apenas uma rajada confusa de ar que perspessa as orelhas e nos faz perceber um ruído que nos dá a impressão de que algo passou. Algo rápido demais para entender ou perceber que foi real. Um modelo falho de um sistema falho e opressivo. A falta de sentido, por isso, deve traduzir toda e qualquer aventura que os personagens passam, há um propósito político disfarçado nas loucuras vivenciadas pelos personagens.

Talvez seja isso que no final assuste tanto a maioria das pessoas que se entregam a um romance deste tipo. Pensar em uma vida de loucuras injustificadas, conformando-se com isso sem resistências, sem nem ao menos procurar qualquer outro motivo que pareça dignificar a vida humana, não só assusta, como talvez tire os principais motivos de se persistir com as constantes indagações que acometem a nossa espécie. No entanto, a mim mesma só resta justificar-me pela mesma frase que Hunter Thompson cita antes de iniciar sua narrativa:


“Quem faz de si um animal selvagem fica livre da dor de ser um homem”
- Dr. Johnson

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Alcunha de civilizados.

Então falava eu sobre a nudez num jantar em família. Os assuntos pretendiam-se banais, porém em um deslize, toda superficialidade torna-se uma polêmica. E meu primo, ao falar sobre uma mulher que fazia compras usando apenas um biquine, estampou na face uma expressão estúpida, moralmente embasbacado com a liberdade alheia. Falei: pois então achas mais lógico que nos encapotemos em nome de um pudor fantasma, para então abrir mão dos espaços públicos, nos reservando aos minúsculos espaços refrigerados, para talvez assim então recebermos a alcunha de civilizados?

Recebi nada mais que um olhar vago, que nem sequer conseguia me focar. Uns argumentos pequenos ditos em murmúrios incompreensíveis, e do outro lado da mesa, um riso que se divertia com a situação inesperada.

Então, quem me dera....


Pudesse eu estender os braços, realmente estendê-los.
Separando os dedos uns dos outros, esticando-os, e podendo assim deixar passar o ar por eles.
Quem me dera, pudesse eu despregar os pés do chão
desenterrá-los, desenraizá-los da noção de concretude.
Estaria eu então desapegada,
Mas estou assim, assim como você.
Estática, tal qual uma árvore, que se estica, com a aparência ainda petrificada.

domingo, 1 de setembro de 2013

Distração

Será que é possível precaver-se da angústia de distrair-se? Num esforço sério e contínuo endurecer a direção dos olhos para que os mesmos não possam desviar para paisagens dúbias? Mas como é terrível perceber então que só estáticos ficam esses quando não miram com objetividade  a concretude à frente.