Comprei um caixão. Forte estrutura de marfim envernizado. Tomou metade do espaço, mas afastei os móveis sem esforço. Não ficou mal no meio da sala. As visitas puderam ainda entrar, e sentando-se no sofá, olharam para ele a admirá-lo temerosas.
Meu caixão estava lá, pomposo e bonito. Eu em noites mais delirantes, deitava-me sobre ele, ainda com medo de me aconchegar por dentro, e partia em sonhos majestosos, onde meu corpo descansava pesado e algo maior em mim mantinha-se mais vivo.
Eu poderia não idealizar tanto. Um corpo morto sob a terra pura, mesclando-se com as raízes da sequoia poderia mostrar-se mais pungente. Mas como romper com o drama teatral dos vivos? Como privá-los dos inúteis adornos?
Quis desfazer-me devagar. Sentido por sentido.
O caixão no meio da sala, agarrado aos meus pesares, virou quase matéria viva. Eu sem metade do peso, vi-me tomada, saqueada. Grama por grama desfazia-se. Mas era consciente que lhe fazia a doação, e o marfim lá sabia. Quando eu passava por ele, sem motivos, ele tocava-me o tornozelo e já enfraquecia a concretude dos ossos. Mamãe, ao me ver definhar, se preocupava, chorava, perguntava, sofria. E eu não dizia nada, já quase livre de mim, eu desdenhava um franco olhar e perdida em loucura, sorria.
Eu não quis deixar transparecer meu real objetivo. Quis deixar tudo mais literário. As contas pra pagar ao lado do fogão, a foto do amor fugido no mês anterior, a solidão pintando o quadro vazio, a garrafa de vinho pela metade, a taça quebrada no tapete. Mesquinhos motivos expostos para contarem com mais fervor: “desiludiu-se, foi por amor”.
Assim, quando aconteceu, tiveram a quem culpar, ao menos. E poucos divagaram perdidos sobre os motivos sem razão. “A carne é a maior verdade” pensam eles, “esses que contestam, procuram qualquer outra coisa em vão”.
Mas comigo não se preocuparam. Foi apenas morte. “Alguma falta de vontade esvaziou-lhe das veias qualquer vitalidade”, disse um. O outro insistiu: “Foi por amor”. Um, porém, mais esperto, arriscou: “Desconjuntou-se fisicamente, secou. Mas algum sumo espiritual ainda alcança maiores alturas".
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