segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Alcunha de civilizados.

Então falava eu sobre a nudez num jantar em família. Os assuntos pretendiam-se banais, porém em um deslize, toda superficialidade torna-se uma polêmica. E meu primo, ao falar sobre uma mulher que fazia compras usando apenas um biquine, estampou na face uma expressão estúpida, moralmente embasbacado com a liberdade alheia. Falei: pois então achas mais lógico que nos encapotemos em nome de um pudor fantasma, para então abrir mão dos espaços públicos, nos reservando aos minúsculos espaços refrigerados, para talvez assim então recebermos a alcunha de civilizados?

Recebi nada mais que um olhar vago, que nem sequer conseguia me focar. Uns argumentos pequenos ditos em murmúrios incompreensíveis, e do outro lado da mesa, um riso que se divertia com a situação inesperada.

Então, quem me dera....


Pudesse eu estender os braços, realmente estendê-los.
Separando os dedos uns dos outros, esticando-os, e podendo assim deixar passar o ar por eles.
Quem me dera, pudesse eu despregar os pés do chão
desenterrá-los, desenraizá-los da noção de concretude.
Estaria eu então desapegada,
Mas estou assim, assim como você.
Estática, tal qual uma árvore, que se estica, com a aparência ainda petrificada.

domingo, 1 de setembro de 2013

Distração

Será que é possível precaver-se da angústia de distrair-se? Num esforço sério e contínuo endurecer a direção dos olhos para que os mesmos não possam desviar para paisagens dúbias? Mas como é terrível perceber então que só estáticos ficam esses quando não miram com objetividade  a concretude à frente.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A imensidão do fim que se permuta constante

(...)

É este então o fim, meu bem. Nada que aconteça numa lentidão observável. Será demorado, mas será um absurdo. Um fio de tempo estendendo-se no limbo permanente. Um fim que nascerá todo dia em caótico desarranjo com a paciência. Um fim desmedido e perpetuado na inconsciência humana, rasgando os lençóis antigos da simbólica realidade.

Um fim sem par, amor.

Cegueira bruta

Estou cega
é que não enxergo o tremeluzir que a luz apresenta n'água
e de toda a luz que poderia se encaixar nos meus olhos
eu só clamo esta que se funde na chuva

Mas não há mais
não há mais claridade que se encaixe nas minhas pupilas
eu afogo meu rosto no rio,
frustrada
e percebo ao sair somente a sombra
a sombra em mim eternamente agarrada.

Confusas observações sobre o que nasce

e no berço de tudo, meu bem, vc ainda vai descobrir
que há somente o limbo poético desgarrado de ti
que se há começo
não precisa haver de ter o fim
porque o nascimento que se dá neste berço que observas
já é aquilo que poderia considerar também a morte
foi um desfazer de partículas, afinal
a origem foi a enunciação de um verbo que partiu

Sobre as desinteressantes concretudes que nos tomam.

Não me interessa a forma expressa
em concretudes inquestionáveis
nem a sombra exata que incide sobre os corpos
sem transfigurar banalidades.
Me interessa sim,
no entanto,
a angústia que não nomeia os prantos
o choro curto e soturno
das esferas caóticas que manejam a criação de outros universos
Me interessa o fantástico contorcimento das partículas do absurdo.
De tudo que no final é só um fino tudo.
Um tudo demasiado grande para a concretude desinteressante,
poder definir.